Outubro 11, 2011

Reader's Digest

DRAMAS que eu posso ter depois
ficam pra depois
de alguns uísques
e aí se resolvem os grandes dramas da vida
8 ou 12?

***

PROBLEMAS, estive com alguns
então me peguei desenhando
o que parecia aleatório
mas não devia ser
era o retrato exato do que estava pensando --
pena que eu não saiba o que era

***

A VIDA é bem fácil
especialmente depois de se ficar bêbado
a foda é ficar bêbado
decidir se bebo por causa das contas, do trabalho, da casa, da mãe, dos amigos, dos desconhecidos ou por porra nenhuma
-- é difícil,
aí eu bebo, e fica fácil

***

PROCURO o significado das coisas
tento ouvir uma certa voz do conhecimento
na música:
merda -- progressivo sueco não tem ajudado

***

Agosto 08, 2011

conversa

perguntei a meu amigo Charles
e ele não disse nada

mas ele sabe
eu sei

está me escondendo
eu acho que ele disse
que era pra tomar mais cerveja
mas eu não entendi

perguntei várias vezes
sabe, quando arranha a garganta de perguntar gritando
continua e perplexamente?
sabe aquela porra de ficar tremendo
puto, esperando o cara responder
e o filho da puta te olha e só bebe mais um gole

é uma merda
mas ele sabe

ele sabe que eu fudi tudo
ele sabe que eu fiz errado
não quer me dizer
porque gosta de mim pra caralho

mas talvez ele não saiba tanto
eu não tenho a idade dele
essas coisas passam, ele devia saber

ele acha que ele sabe
mas ele já deve ter feito essa merda
por isso não quer me dizer

você é um merda, cara
digo pra ele

mas, sabe,
não devia te dizer, menina
vai passar
e quando passar
eu vou continuar feliz pra sempre
na merda, mas vou
porque aqui é meu lugar
a poesia está na merda
aqui que é bom
aquele sentido de se fuder bem
feliz
aqui
ah! que meu pulmão se enche e quase estoura

foi isso que ele me disse
não procure sentido, filho
tome sua cerveja
e escreva suas poesias
que serão uma bosta
se isto te faz bem
ou melhor, se tira esse mal-estar de dentro de você
vá em frente, só isso

obrigado, Buk, obrigado

Abril 09, 2011

Blasfemástico, 9, 1-10

1 Não tenha ciúme da sua esposa para que ela não tenha ciúme de você.
2 Não dê à mulher poder sobre você para que não se meta na sua vida.
3 Procures mulheres da vida para que caia em seus laços, mas nunca por mais de 50 reais,
4 mas, realmente, cuidado com as sedutoras, prefira as medianas, e também não as ouça.
5 Não fixe olhar nem outra coisa nas virgens para que não tenha dor de cabeça!
6 Se entregue às putas, mas cuidado com o que resta da sua grana.
7 Beba cerveja apenas em ruelas e vagueando por praças, mas sempre em garrafa!
8 Desvie seu olhar da mulher enfeitada e bem vestida, por trás a verdade é outra, e cuidado com o alheio da mulher alheia.
9 Pela beleza da mulher muitos se fuderam, mas é a vida, e o que importa é se foi uma boa foda.
10 Não se sente com uma mulher casada para tomar vinho, leve-a num motel e divida a conta,
não troque telefone nem diga o nome correto para não cair em perdição.

27 ago 09

Outubro 17, 2010

Tibi

Decidi de repente
escrever uma merda qualquer
e pensei em você

então te dedico esta porra
este textículo
não diz nada
nunca disse

faz dizer algumas línguas
diz fazer alguns poemas

e tudo que não sei
e todos que não conheço
sabem agora

beijo nas crianças

nesta altura mais valem umas boas noites de sono
umas cervejas aqui no bar da esquina
(de chinelo, no pendura)
que muita merda que já li

o foda é que não desligo as coisas
pra mim tudo é o mesmo
e beber ali sem o Erza não dá
Catulo também aparece, até o danado do Ovídio

tento desfazer as referências
mas aí parece trabalho de aluno de aluno de 1º período

num dá, pq fica oswaldiano
meu drama é esse

eu quero, eu quero
ainda vou nerudar, vc vai ver (esse verso ficou bom!)
mas é foda

é minerar, minerar
tentar, tentar
escrever tanta merda
pra conseguir porra nenhuma!

de toda fórmula, então,
toma este opúsculo
caro Ningúem de Todos da Silva
em franca oferenda

o que era meu seja agora teu!
...

Novembro 19, 2009

Crônica poética

Sempre fui a lugares aristocráticos
mas nunca fui um deles
Sempre nos cantos, observando
vendo a soberba tintilar nos goles maltados
a ignorância esvaindo esfumaçada
mas adorava o espetáculo

há um quê de antropólogo em mim
que a experimentação de tipos curiosos
satisfaz a ciência do meu escárnio

há uma romanidade na minha visão
um acetum no meu olhar
que tornam conversas e olhares
em epigramas satíricos na minha cabeça

é o mais divertido dos espetáculos
ver o ser humano se afundar
em sua própria ignorância e impáfia

menos romântico e menos horaciano
longe do Jabour e longe de Levi-Strauss
não é a visão do excluído nem do incluído
nem do flaneur nem do poeta
é uma experiência quase botânica
quase pornográfica
é o debulhar da buceta da imperfeição
tão profunda e desejada
mas tão distante e inalcançável para mim

analiso o dia a dia
de uma tribuna embotelhada
desterrado dos sentimentos
meus ou próprios

um alienígena entre minha própria gente
minha mulher não entende
mas no fim
rio de mim no espelho do mundo

Outubro 12, 2009

Sodoma

Cheguei em casa. Eram umas 2 da manhã, meio atordoadas. Homens e homens ali, se comendo, se chupando, promiscuamente, sem pudor, sem raiva, apenas; se lavando com cuspe nas mãos, se conhecendo e desconhecendo instantaneamente. Embora estivesse ainda bêbado e trôpego, aquela rua, aquela cena era para mim um livro difícil, uma pintura muito constrangedora. Não posso. Não posso pensar na cena que visualizei e que é real.

No Centro, domingos e feriados são feiras livres de sexo e lascívia homoerótica. Vovôs em carrões estacionados a alguns metros encontram moços nem tão belos e se ajoelham numa missa silente e invasiva. Poucas famílias e transeuntes desavisados, alguns turistas e os locais circulam eventualmente, e nada faz aquela Sodoma parar. Rapazes e moços de variados tamanhos e tipos se procuram e se encontram em fálicos e despretensiosos propósitos. Os quartos e as alcovas são pilotis de grandes prédios, que funcionam como banheiros alternadamente. E tudo é de graça, tudo pelo prazer. Uma vez pela frente, na próxima esquina por trás, num troca-troca que se esgota lá pela meia-noite.

Bebi ainda mais alguns goles de uísque sentado na sala, pensando naquilo. Eu sabia que isso acontecia, mas nunca tinha visto antes. Eu vi o pau de um cara entrando e saindo da boca de um rapaz que em 10 minutos estava comendo outro por trás. Eu vi algumas camisinhas sendo jogadas e outras sendo rasgadas com os dentes de um qualquer antes das estocadas secas que se ouvia ao longe.

Eu parecia uma criança, tudo aquilo me provocava um horror súbito e infantil até. Fui até o quarto, olhei para ele e estava tudo bem. George dormia numa boa, seu sono tranquilo e sem ciúmes. Ainda atordoado pela bebida e por aquela rua, fiquei em pé na porta, pensando: por quê? Nunca li filosofia, não conheço a alma humana. Não conheço nem muita gente, apenas os poucos tios que tive e o pessoal da escola e do trabalho. Estudei num colégio de padres e logo comecei a trabalhar numa gráfica, à noite. Conheci o George depois e nos casamos, do nosso jeito, claro. Fui até o banheiro, lavei o rosto, e o espelho me mostrava no fundo dos olhos um cara, gordo, meio sujo, chegando num mais novinho, bem vestido com roupas descoladas e cinto de espelhinhos. Não foram precisos mais de 2 ou 3 minutos de uma conversa ao pé do ouvido para que se virasse, abaixasse as calças até um pouco acima do joelho, se curvasse tranquilamente para se apoiar na pilastra em frente e se deixasse penetrar por não mais de 5 minutos, tudo numa operação muito rápida e eficiente. Seu semblante depois disso era de satisfação e harmonia. Tendo levantado as calças, foi embora e talvez tenha parado mais a frente, já não sei.

Voltei e entrei no quarto, sentei na cama, dei um beijo no George e deitei ao seu lado, abraçando-o bem forte. Ele não entendeu nada. Mas de alguma forma eu me sentia seguro ali. O horror do desamor, do infortúnio, da impudicícia me causou espanto, e aquela cena ficou nos meus sonhos, pelo menos por mais algumas semanas.

O George nunca soube de nada, nem porque eu estive lá. Talvez nem eu. Eu só sei que não cheguei muito bem aquele dia e que nunca mais entendi aquilo.

Agosto 24, 2009

Bêbado (miniconto)


Um homem entrou no bar e disse:
— Café?
— Temos sim, senhor. Um?
— Eu não quero seu café, meu amigo.
Silêncio.
O homem era assim, um ébrio natural. Não que fosse permitido aos bêbados serem mal-educados ou impróprios, mas lhes cabe tanto esta fama que não há de se recriminar.
Cambaleia até o balcão. Lutando contra si, ou talvez fosse uma mosca, socando o ar em movimentos cambiantes e extremamente ágeis para um senhor naquela condição, dá duas piscadelas e execra o garçom:
— Seu merda!
— Mas, senhor, eu lhe pediria um pouco mais de compostura e discernimento. Estamos num estabelecimento de família!
— Eu odeio especialmente estabelecimentos de família. Você conhece o 37? Lá também é um estabelecimento de família: não tem uma puta que não tenha um filho muito bem conhecido e nenhum dos senhores que lá frequentam deixaria de dar um beijo na testa de sua especialíssima esposa na manhã de uma terça...
Serve então o garçom uma cachaça ao nosso Douglas e continua a enxugar os copos com muito cuidado.
— O drama, meu filho, é que não conheço a tua mãe!
— Por quê, senhor?
— Para poder garantir que era uma puta!
— Meu senhor, já lhe avisei algumas vezes. Este comportamento não será mais permitido aqui. Caso o senhor venha a fazer qualquer ofensa novamente, serei obrigado a lhe expulsar desta casa... mesmo à força!
— Então, tá! Mas onde você aprendeu a falar assim? Não creio que tenha sido no curso para lavador de copos...
— Não lhe responderei, mas, caso o senhor não tenha percebido, o senhor me ofendeu insinuando desta maneira que lavadores de copo não podem falar de tal ou qual forma.
— Ah! Deixa pra lá. Me dá outra Lua Nova.
Bebeu. Levantou. Foi ao banheiro. Mixou na pia, ou na lixeira, não importa. Voltou. Pediu a terceira cachaça:
— Já sei qual é a tua! Tu é um escritor fudido! E mais: tu nunca publicou uma obra tua, seu merda! E tá aí, lavando copo e tendo que servir um bêbado idiota como eu!
— O senhor gostaria de outra dose?
— Vai à merda, meu irmão! Eu odeio gente como tu! É um bosta. Aposto que leu Shakespeare todo e disse isso pra conquistar a primeira namoradinha. Óbvio! Ela te deu um chute. Seu paspalho. Agora, vê!
Saiu. Não lembro se deixou algumas notas, mas possivelmente não cobriram as custas. A noite chovia horrores. Saiu-se enflanelando num casaco que não tinha, e meio tonto do encontro desregrado e nervoso.
Parou debaixo de uma marquise. Estava no Centro. Deviam ser umas 2 ou 3 da manhã. Sentou. Encontrou um senhor sentado e coberto, um pouco sujo, talvez mal cheiroso, mas acordado e sem frio.
— Vai um trago aí
puxou um cigarro.
— Humrr!...
— Outro merda: esse brigou com a mulher... não, com a mãe... e está por aí vagando, sujo, na merda total!
Fumou outro cigarro. Levantou e foi embora para casa na chuva ainda mais apertada, pensando:
— Caras bacanas. Eu podia ser assim...