Novembro 19, 2009

Crônica poética

Sempre fui a lugares aristocráticos
mas nunca fui um deles
Sempre nos cantos, observando
vendo a soberba tintilar nos goles maltados
a ignorância esvaindo esfumaçada
mas adorava o espetáculo

há um quê de antropólogo em mim
que a experimentação de tipos curiosos
satisfaz a ciência do meu escárnio

há uma romanidade na minha visão
um acetum no meu olhar
que tornam conversas e olhares
em epigramas satíricos na minha cabeça

é o mais divertido dos espetáculos
ver o ser humano se afundar
em sua própria ignorância e impáfia

menos romântico e menos horaciano
longe do Jabour e longe de Levi-Strauss
não é a visão do excluído nem do incluído
nem do flaneur nem do poeta
é uma experiência quase botânica
quase pornográfica
é o debulhar da buceta da imperfeição
tão profunda e desejada
mas tão distante e inalcançável para mim

analiso o dia a dia
de uma tribuna embotelhada
desterrado dos sentimentos
meus ou próprios

um alienígena entre minha própria gente
minha mulher não entende
mas no fim
rio de mim no espelho do mundo

Outubro 12, 2009

Sodoma

Cheguei em casa. Eram umas 2 da manhã, meio atordoadas. Homens e homens ali, se comendo, se chupando, promiscuamente, sem pudor, sem raiva, apenas; se lavando com cuspe nas mãos, se conhecendo e desconhecendo instantaneamente. Embora estivesse ainda bêbado e trôpego, aquela rua, aquela cena era para mim um livro difícil, uma pintura muito constrangedora. Não posso. Não posso pensar na cena que visualizei e que é real.

No Centro, domingos e feriados são feiras livres de sexo e lascívia homoerótica. Vovôs em carrões estacionados a alguns metros encontram moços nem tão belos e se ajoelham numa missa silente e invasiva. Poucas famílias e transeuntes desavisados, alguns turistas e os locais circulam eventualmente, e nada faz aquela Sodoma parar. Rapazes e moços de variados tamanhos e tipos se procuram e se encontram em fálicos e despretensiosos propósitos. Os quartos e as alcovas são pilotis de grandes prédios, que funcionam como banheiros alternadamente. E tudo é de graça, tudo pelo prazer. Uma vez pela frente, na próxima esquina por trás, num troca-troca que se esgota lá pela meia-noite.

Bebi ainda mais alguns goles de uísque sentado na sala, pensando naquilo. Eu sabia que isso acontecia, mas nunca tinha visto antes. Eu vi o pau de um cara entrando e saindo da boca de um rapaz que em 10 minutos estava comendo outro por trás. Eu vi algumas camisinhas sendo jogadas e outras sendo rasgadas com os dentes de um qualquer antes das estocadas secas que se ouvia ao longe.

Eu parecia uma criança, tudo aquilo me provocava um horror súbito e infantil até. Fui até o quarto, olhei para ele e estava tudo bem. George dormia numa boa, seu sono tranquilo e sem ciúmes. Ainda atordoado pela bebida e por aquela rua, fiquei em pé na porta, pensando: por quê? Nunca li filosofia, não conheço a alma humana. Não conheço nem muita gente, apenas os poucos tios que tive e o pessoal da escola e do trabalho. Estudei num colégio de padres e logo comecei a trabalhar numa gráfica, à noite. Conheci o George depois e nos casamos, do nosso jeito, claro. Fui até o banheiro, lavei o rosto, e o espelho me mostrava no fundo dos olhos um cara, gordo, meio sujo, chegando num mais novinho, bem vestido com roupas descoladas e cinto de espelhinhos. Não foram precisos mais de 2 ou 3 minutos de uma conversa ao pé do ouvido para que se virasse, abaixasse as calças até um pouco acima do joelho, se curvasse tranquilamente para se apoiar na pilastra em frente e se deixasse penetrar por não mais de 5 minutos, tudo numa operação muito rápida e eficiente. Seu semblante depois disso era de satisfação e harmonia. Tendo levantado as calças, foi embora e talvez tenha parado mais a frente, já não sei.

Voltei e entrei no quarto, sentei na cama, dei um beijo no George e deitei ao seu lado, abraçando-o bem forte. Ele não entendeu nada. Mas de alguma forma eu me sentia seguro ali. O horror do desamor, do infortúnio, da impudicícia me causou espanto, e aquela cena ficou nos meus sonhos, pelo menos por mais algumas semanas.

O George nunca soube de nada, nem porque eu estive lá. Talvez nem eu. Eu só sei que não cheguei muito bem aquele dia e que nunca mais entendi aquilo.

Agosto 24, 2009

Bêbado (miniconto)


Um homem entrou no bar e disse:
— Café?
— Temos sim, senhor. Um?
— Eu não quero seu café, meu amigo.
Silêncio.
O homem era assim, um ébrio natural. Não que fosse permitido aos bêbados serem mal-educados ou impróprios, mas lhes cabe tanto esta fama que não há de se recriminar.
Cambaleia até o balcão. Lutando contra si, ou talvez fosse uma mosca, socando o ar em movimentos cambiantes e extremamente ágeis para um senhor naquela condição, dá duas piscadelas e execra o garçom:
— Seu merda!
— Mas, senhor, eu lhe pediria um pouco mais de compostura e discernimento. Estamos num estabelecimento de família!
— Eu odeio especialmente estabelecimentos de família. Você conhece o 37? Lá também é um estabelecimento de família: não tem uma puta que não tenha um filho muito bem conhecido e nenhum dos senhores que lá frequentam deixaria de dar um beijo na testa de sua especialíssima esposa na manhã de uma terça...
Serve então o garçom uma cachaça ao nosso Douglas e continua a enxugar os copos com muito cuidado.
— O drama, meu filho, é que não conheço a tua mãe!
— Por quê, senhor?
— Para poder garantir que era uma puta!
— Meu senhor, já lhe avisei algumas vezes. Este comportamento não será mais permitido aqui. Caso o senhor venha a fazer qualquer ofensa novamente, serei obrigado a lhe expulsar desta casa... mesmo à força!
— Então, tá! Mas onde você aprendeu a falar assim? Não creio que tenha sido no curso para lavador de copos...
— Não lhe responderei, mas, caso o senhor não tenha percebido, o senhor me ofendeu insinuando desta maneira que lavadores de copo não podem falar de tal ou qual forma.
— Ah! Deixa pra lá. Me dá outra Lua Nova.
Bebeu. Levantou. Foi ao banheiro. Mixou na pia, ou na lixeira, não importa. Voltou. Pediu a terceira cachaça:
— Já sei qual é a tua! Tu é um escritor fudido! E mais: tu nunca publicou uma obra tua, seu merda! E tá aí, lavando copo e tendo que servir um bêbado idiota como eu!
— O senhor gostaria de outra dose?
— Vai à merda, meu irmão! Eu odeio gente como tu! É um bosta. Aposto que leu Shakespeare todo e disse isso pra conquistar a primeira namoradinha. Óbvio! Ela te deu um chute. Seu paspalho. Agora, vê!
Saiu. Não lembro se deixou algumas notas, mas possivelmente não cobriram as custas. A noite chovia horrores. Saiu-se enflanelando num casaco que não tinha, e meio tonto do encontro desregrado e nervoso.
Parou debaixo de uma marquise. Estava no Centro. Deviam ser umas 2 ou 3 da manhã. Sentou. Encontrou um senhor sentado e coberto, um pouco sujo, talvez mal cheiroso, mas acordado e sem frio.
— Vai um trago aí
puxou um cigarro.
— Humrr!...
— Outro merda: esse brigou com a mulher... não, com a mãe... e está por aí vagando, sujo, na merda total!
Fumou outro cigarro. Levantou e foi embora para casa na chuva ainda mais apertada, pensando:
— Caras bacanas. Eu podia ser assim...

Agosto 14, 2009

Sarau de Quinta

Ontem estive no Sarau de Quinta. Recitei algumas poesias do livro, e diversas outras intervenções poéticas, teatrais, musicais e afins melhores (e piores) ocorreram por lá. A Juliana está de parabéns pela promoção do evento! Será continuado. Foi no Espaço Imaginário (Rua Gomes Freire, 453/457, Lapa).

Julho 27, 2009

...

Um novo projeto para o Espaço anda meio atravancado. Para o segundo semestre, algo volta a acontecer. Talvez.

Março 15, 2009

Poesia dêitica

pai
não me deixe
pai
pai

mulher, mulher
EX FVMO DARE LVCEM
Erza
mulher, canto

me repito
novamente me
me
meu

olhos e horizontes
cinzas
frios
longes
peço
eco
prece
peco
Adriana Calcanhoto

formigas
for
migas
formigalhas
Gullar

sino
vazio
praia
frio
Pablo

cu
puta
livros
Buk

tudo que escrevo está escrito
vou embora
não posso
que é para Pasárgada

trem
tem dono
todos os sofrimentos já foram sofridos
menos o meu
mesmo que porventura alguém o tenha sofrido

por prática
assino
porém
qualquer eu
poderia ter escrito
isso

Fevereiro 06, 2009

Ratos Di Versos

Ontem estive no encontro dos Ratos Di Versos, no Beco dos Carmelitas, 9, Lapa, com o amigo Zé Urbano, e fui muito bem recebido. Recitei 3 poesias do livro. Tentarei voltar mais vezes.