agosto 24, 2009
Bêbado (miniconto)
Um homem entrou no bar e disse:
— Café?
— Temos sim, senhor. Um?
— Eu não quero seu café, meu amigo.
Silêncio.
O homem era assim, um ébrio natural. Não que fosse permitido aos bêbados serem mal-educados ou impróprios, mas lhes cabe tanto esta fama que não há de se recriminar.
Cambaleia até o balcão. Lutando contra si, ou talvez fosse uma mosca, socando o ar em movimentos cambiantes e extremamente ágeis para um senhor naquela condição, dá duas piscadelas e execra o garçom:
— Seu merda!
— Mas, senhor, eu lhe pediria um pouco mais de compostura e discernimento. Estamos num estabelecimento de família!
— Eu odeio especialmente estabelecimentos de família. Você conhece o 37? Lá também é um estabelecimento de família: não tem uma puta que não tenha um filho muito bem conhecido e nenhum dos senhores que lá frequentam deixaria de dar um beijo na testa de sua especialíssima esposa na manhã de uma terça...
Serve então o garçom uma cachaça ao nosso Douglas e continua a enxugar os copos com muito cuidado.
— O drama, meu filho, é que não conheço a tua mãe!
— Por quê, senhor?
— Para poder garantir que era uma puta!
— Meu senhor, já lhe avisei algumas vezes. Este comportamento não será mais permitido aqui. Caso o senhor venha a fazer qualquer ofensa novamente, serei obrigado a lhe expulsar desta casa... mesmo à força!
— Então, tá! Mas onde você aprendeu a falar assim? Não creio que tenha sido no curso para lavador de copos...
— Não lhe responderei, mas, caso o senhor não tenha percebido, o senhor me ofendeu insinuando desta maneira que lavadores de copo não podem falar de tal ou qual forma.
— Ah! Deixa pra lá. Me dá outra Lua Nova.
Bebeu. Levantou. Foi ao banheiro. Mixou na pia, ou na lixeira, não importa. Voltou. Pediu a terceira cachaça:
— Já sei qual é a tua! Tu é um escritor fudido! E mais: tu nunca publicou uma obra tua, seu merda! E tá aí, lavando copo e tendo que servir um bêbado idiota como eu!
— O senhor gostaria de outra dose?
— Vai à merda, meu irmão! Eu odeio gente como tu! É um bosta. Aposto que leu Shakespeare todo e disse isso pra conquistar a primeira namoradinha. Óbvio! Ela te deu um chute. Seu paspalho. Agora, vê!
Saiu. Não lembro se deixou algumas notas, mas possivelmente não cobriram as custas. A noite chovia horrores. Saiu-se enflanelando num casaco que não tinha, e meio tonto do encontro desregrado e nervoso.
Parou debaixo de uma marquise. Estava no Centro. Deviam ser umas 2 ou 3 da manhã. Sentou. Encontrou um senhor sentado e coberto, um pouco sujo, talvez mal cheiroso, mas acordado e sem frio.
— Vai um trago aí — puxou um cigarro.
— Humrr!...
— Outro merda: esse brigou com a mulher... não, com a mãe... e está por aí vagando, sujo, na merda total!
Fumou outro cigarro. Levantou e foi embora para casa na chuva ainda mais apertada, pensando:
— Caras bacanas. Eu podia ser assim...
agosto 14, 2009
Sarau de Quinta
Ontem estive no Sarau de Quinta. Recitei algumas poesias do livro, e diversas outras intervenções poéticas, teatrais, musicais e afins melhores (e piores) ocorreram por lá. A Juliana está de parabéns pela promoção do evento! Será continuado. Foi no Espaço Imaginário (Rua Gomes Freire, 453/457, Lapa).