Cheguei em casa. Eram umas 2 da manhã, meio atordoadas. Homens e homens ali, se comendo, se chupando, promiscuamente, sem pudor, sem raiva, apenas; se lavando com cuspe nas mãos, se conhecendo e desconhecendo instantaneamente. Embora estivesse ainda bêbado e trôpego, aquela rua, aquela cena era para mim um livro difícil, uma pintura muito constrangedora. Não posso. Não posso pensar na cena que visualizei e que é real.
No Centro, domingos e feriados são feiras livres de sexo e lascívia homoerótica. Vovôs em carrões estacionados a alguns metros encontram moços nem tão belos e se ajoelham numa missa silente e invasiva. Poucas famílias e transeuntes desavisados, alguns turistas e os locais circulam eventualmente, e nada faz aquela Sodoma parar. Rapazes e moços de variados tamanhos e tipos se procuram e se encontram em fálicos e despretensiosos propósitos. Os quartos e as alcovas são pilotis de grandes prédios, que funcionam como banheiros alternadamente. E tudo é de graça, tudo pelo prazer. Uma vez pela frente, na próxima esquina por trás, num troca-troca que se esgota lá pela meia-noite.
Bebi ainda mais alguns goles de uísque sentado na sala, pensando naquilo. Eu sabia que isso acontecia, mas nunca tinha visto antes. Eu vi o pau de um cara entrando e saindo da boca de um rapaz que em 10 minutos estava comendo outro por trás. Eu vi algumas camisinhas sendo jogadas e outras sendo rasgadas com os dentes de um qualquer antes das estocadas secas que se ouvia ao longe.
Eu parecia uma criança, tudo aquilo me provocava um horror súbito e infantil até. Fui até o quarto, olhei para ele e estava tudo bem. George dormia numa boa, seu sono tranquilo e sem ciúmes. Ainda atordoado pela bebida e por aquela rua, fiquei em pé na porta, pensando: por quê? Nunca li filosofia, não conheço a alma humana. Não conheço nem muita gente, apenas os poucos tios que tive e o pessoal da escola e do trabalho. Estudei num colégio de padres e logo comecei a trabalhar numa gráfica, à noite. Conheci o George depois e nos casamos, do nosso jeito, claro. Fui até o banheiro, lavei o rosto, e o espelho me mostrava no fundo dos olhos um cara, gordo, meio sujo, chegando num mais novinho, bem vestido com roupas descoladas e cinto de espelhinhos. Não foram precisos mais de 2 ou 3 minutos de uma conversa ao pé do ouvido para que se virasse, abaixasse as calças até um pouco acima do joelho, se curvasse tranquilamente para se apoiar na pilastra em frente e se deixasse penetrar por não mais de 5 minutos, tudo numa operação muito rápida e eficiente. Seu semblante depois disso era de satisfação e harmonia. Tendo levantado as calças, foi embora e talvez tenha parado mais a frente, já não sei.
Voltei e entrei no quarto, sentei na cama, dei um beijo no George e deitei ao seu lado, abraçando-o bem forte. Ele não entendeu nada. Mas de alguma forma eu me sentia seguro ali. O horror do desamor, do infortúnio, da impudicícia me causou espanto, e aquela cena ficou nos meus sonhos, pelo menos por mais algumas semanas.
O George nunca soube de nada, nem porque eu estive lá. Talvez nem eu. Eu só sei que não cheguei muito bem aquele dia e que nunca mais entendi aquilo.