novembro 19, 2009

Crônica poética

Sempre fui a lugares aristocráticos
mas nunca fui um deles
Sempre nos cantos, observando
vendo a soberba tintilar nos goles maltados
a ignorância esvaindo esfumaçada
mas adorava o espetáculo

há um quê de antropólogo em mim
que a experimentação de tipos curiosos
satisfaz a ciência do meu escárnio

há uma romanidade na minha visão
um acetum no meu olhar
que tornam conversas e olhares
em epigramas satíricos na minha cabeça

é o mais divertido dos espetáculos
ver o ser humano se afundar
em sua própria ignorância e impáfia

menos romântico e menos horaciano
longe do Jabour e longe de Levi-Strauss
não é a visão do excluído nem do incluído
nem do flaneur nem do poeta
é uma experiência quase botânica
quase pornográfica
é o debulhar da buceta da imperfeição
tão profunda e desejada
mas tão distante e inalcançável para mim

analiso o dia a dia
de uma tribuna embotelhada
desterrado dos sentimentos
meus ou próprios

um alienígena entre minha própria gente
minha mulher não entende
mas no fim
rio de mim no espelho do mundo